A equipa dos primeiros 6
Corria o ano de 1953. A Congregação dos Redentoristas em Portugal ia crescendo. A sua actividade apostólica - mormente através das Missões Paroquiais - estendera-se a todas as dioceses do país. Além dos Redentoristas espanhóis aqui radicados contávamos já com um número significativo de portugueses entre Padres e Irmãos.
Numa nação historicamente comprometida com a evangelização das «colónias», começou-se a sentir bem ao vivo a interrogação: e nós, os Redentoristas, não deveríamos começar a pensar num primeiro contingente a integrar-se nas fileiras missionárias do «Ultramar»? Por outro lado, era bem insistente por aqueles anos o apelo da Santa Sé para o envio de mais missionários rumo à África. Era forçoso dar uma resposta, que, aliás, não tardou.
Nessa altura o Bispo de Silva Porto (Bié) - Angola - veio bater às portas do nosso Superior ViceProvincial. Solicitava um reforço de Missionários para aquela tão vasta diocese angolana. O empreendimento da fundação da Missão dos Redentoristas de Portugal em Angola ia começar.
Não foi pequeno o número dos voluntários e discípulos que se prontificaram a dizer ao Senhor como os antigos profetas e apóstolos de todos os tempos: «Eis-me aqui, Senhor! Envia-me!» De entre estes valentes os Superiores escolheram 6. Era a primeira equipa, integrada por 4 padres e 2 irmãos auxiliares. Os seus nomes ficaram bem gravados nas nossas crónicas: Padres Teodoro, Venceslau, Rocha, Moreira e Irmãos Álvaro e Firmino.
No dia 15 de Novembro de 1953 o Sr. Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, presidiu ao acto solene do «envio missionário» e da entrega do crucifico missionário aos 6 enviados, na igreja de N.ª S.ª do Perpétuo Socorro do Porto.
Cúchi foi a primeira missão
No dia 9 de Dezembro do mesmo ano - assim rezam as crónicas - embarcaram em Lisboa, no «Mouzinho», chegando a Luanda no dia 24, à noite. Dali seguiram para o Lobito a 29, chegando à missão do Cúchi, a 7 de Janeiro de 1954. A missão do Cúchi, situada em pleno mato, na circunscrição da diocese de Silva Porto, seria a primeira brecha de penetração missionária da Congregação em Angola. À sua chegada, a equipa dos 6 sentiu-se tomada dum misto de «aventura e de surpresa».
«Ficámos admirados – escrevem os cronistas! – Um bom número de edifícios, rodeados de arvoredo, laranjais carregados de laranjas... Isto não é África! Mas Deus quis mostrar-nos desde o primeiro momento que sim... que estávamos em África. Os dois Missionários da Congregação do Espírito Santo, que levavam vários anos no Cúchi, não puderam sair a receber-nos. Estavam de cama, com as febres palúdicas, contraídas nas suas últimas visitas de evangelização aos kimbos (aldeias do mato). Ao entrar na capela da Missão, uma cobra «surukukú», muito venenosa, dormia religiosamente, à porta. Se estávamos em Africa! E logo no dia 14 um dos nossos caía também com febre...
Novas expedições
Depois desta primeira expedição do Cúchi, muitas outras se lhe seguiram, embora menos numerosas,
Em 1955: 3 Padres e 1 Irmão
Em 1956: 3 Padres
Em 1957: 1 Padre
Em 1960: 1 Padre e 1 Irmão
Em 1963: 2 Padres
Em 1964: 1 Padre
Em 1965: 2 Padres
Em 1966: 2 Padres
Em 1967: 2 Padres e 1 Irmão
Em 1968: 3 Padres (dos quais dois angolanos, os primeiros professos ordenados na Congregação).
Em 1970: 2 Padres
Em 1972: 2 Padres e 1 Irmão
Em 1973: 2 escolásticos clérigos
Em 1974: 1 Padre
Sobre o que se passou por ocasião da independência e a partir da independência até hoje, falaremos mais adiante.
É bom dizer também que nem todos estes que foram enviados para Angola lá continuaram; houve substituições, regressados por doença, saída...
Novas fundações, novos empreendimentos
Depois da primeira missão do Cúchi, muitas outras missões e empreendimentos sócio-educativos se lhe seguiram. Para não cair na tentação de me espraiar na descrição deste capítulo apaixonante, limitar-me-ei a referenciar cada uma destas novas obras com algum ou outro aspecto mais digno de registo.
Missão do Vouga (Kunhinga). A 340 kms do Cúchi e a 28 da sede da diocese (Silva Porto - Bié). Fundada em 1955. A partir do zero. Junto à nascente dum riacho, o Kunhinga. Sem falar do grande Hospital que surgirá em 1961, esta Missão dispunha, em 1969, de: internato masculino com 300 alunos, internato feminino com 200 alunas e as respectivas escolas, residência dos Padres, residência das Irmãs, uma Escola de Magistério para Professoras de Posto, uma capela e outras dependências. A igreja da Missão só viria a ser concluída em 1970.
O que iria tornar conhecida em toda a Angola a Missão do Vouga foi o seu grande Hospital, obra do empreendedor P. Manuel Garcia, o primeiro em envergadura entre todos os centros de saúde da Igreja em Angola. Integram este complexo hospitalar as seguintes dependências:
- Quatro residências para os médicos
- Residência das Irmãs do Hospital
- Cinco casas para enfermeiros
- Creche e maternidade
- Pousada ou pensão
- Capela
A este hospital acudia gente de todos os cantos de Angola, de europeus e nativos, de abastados e pobres, pedindo-se àqueles que pagassem para ajudar a estes. Em qualquer parte se ouvia falar do «milagre do hospital do Vouga».
Mas aqui, como no caso de outras missões, os começos foram muito austeros para os nossos missionários. Lê-se na crónica do Vouga: «Dia 17 de Setembro de 1955: Chegam o P: Prada e o Ir. Abel, que se instalam numa cubata da pau a pique... começando logo a levantar um grande barracão que faria de igreja ...».
Missão do Capico. Uma missão fundada pelos Espiritanos, que desde 1955 ficou também a ser campo de trabalho missionário para os Redentoristas.
Missão de Serpa Pinto (Menongue). Iniciada em 1958, esta missão, tal como a do Vouga, teve que partir do zero. Diz a crónica: «Desde 1957 que o Superior da Missão do Cúchi andava à procura de terrenos próprios para uma Missão moderna... A 4 kms de Serpa Pinto (Menongue), na confluência dos rios Luahuca e Macuebe seria muito bom, mas teríamos que fazer uma vala de 7 kms para termos água por seu pé». Também aqui a gente estava muito abandonada. Diz ainda a crónica: «O Pe. Máximo visita muitas aldeias que nunca tinham visto um branco. Abre caminhos, faz pontes, mas consegue, chegar a kiokos, ganguelas, luenas, luchazes...». A missão de Menongue veio a ser uma das nossas grandes missões. Mais tarde seria também criada a paróquia da cidade, igualmente confiada aos Padres da Comunidade Redentorista de Menongue. Se a isto juntarmos a fundação duma Comunidade de Irmãs Beneditinas, para trabalhar na Missão, e sobretudo a feliz iniciativa duma Escola Central de Catequistas e Líderes de Comunidade, fácil é compreender o grande centro de irradiação que foi esta fundação de Menongue.
Missão do Cuangar. Em 1959 surge esta nova missão, a 400 kms de Menongue, situada mesmo no limite de Angola com a Namíbia.
Paróquia de Luanda. Em 1964 era inaugurada a igreja da Sagrada Família. Erigida em paróquia, esta é-nos confiada pelo Sr. D. Moisés Alves de Pinho. Também aqui a nossa presença redentorista tem sido bem marcada pelo acento missionário e pastoral.
Missão do Cusseque-Catota. Fundada em 1967 em Cusseque (N'djiva), como filial do Cúchi, mudou depois a sua sede para Catota.
Lar do Estudante em Silva Porto (Bié). Esta outra fundação na cidade sede da diocese, em 1968, obedece a uma necessidade sentida nas Missões do interior: possibilitar o acesso dos alunos mais dotados das missões ao ensino liceal, técnico ou comercial. Ao mesmo tempo que se prestava uma boa formação aos leigos do futuro, proporcionava-se também um ambiente favorável para possíveis vocações.
Paróquia do Andulo. Mais um campo para o que nos foi pedido o nosso contributo, em 1970.
Hospital e paróquia da Humpata. Mais um lançamento hospitalar, também fruto do dinamismo do Pe. Garcia, na vila da Humpata, perto de Sá da Bandeira (Lubanqo). Foi no ano de 1972. Não tardou em vir uma boa equipa de médicos, que lhe granjeou um renome semelhante ao do Vouga. Ao mesmo tempo era-nos confiada também a Paróquia da Humpata.
Tal era o panorama e a situação da Missão Redentorista de Angola, pelo ano de 1975, ano da independência da actual Republica Popular de Angola. Um total de 13 obras, missionárias ou para-missionárias, dispersas por 3 dioceses (Silva Porto, Luanda e Sá da Bandeira), embora mais concretamente na diocese de Silva Porto. Um total já bem expressivo de 27 missionários – 20 padres, 5 irmãos e 2 escolásticos – tendo sido 37, o número global dos que, desde a fundação, foram enviados e trabalharam em Angola.
Os tempos novos da Angola independente
Como é sabido, o 25 de Abril é a grande efeméride histórica para a Angola nova, que não só para Portugal. Desde esta data até ao 11 de Novembro de 1975, data da proclamação da Independência, viveu-se um período de clima tenso e de graves consequências para a obra missionária, devido à guerra civil entre os 3 Movimentos de Libertação. Impossibilitados de continuar a sua actividade, muitos foram os missionários que se viram forçados a aproveitar a ponte aérea em fins de 1975 entre Angola e Portugal. Mas um bom número de missionários e missionárias conseguiu ainda manter-se naquela Angola retalhada, até que, entre Março e Maio de 1976, o M.P.L.A., com a ajuda militar cubana, conseguiu levar um certo controle de partido de governo ao longo do território nacional, sobretudo dos centros urbanos e vilas. Foi nesta fase que se registou a segunda grande retirada forçosa da maioria dos missionários (e a quase totalidade dos civis europeus) das áreas até então controladas pelos outros dois movimentos.
Neste contexto de guerra e confusão e de pronunciamento claro da índole marxista do partido que assumira o poder, a Missão dos Redentoristas de Angola viu-se privada da maior parte dos seus membros, que foi forçada a deixar este seu campo de tantos anos de suor. Assim, de 27 ficamos reduzidos a 6, em 1976. Perdemos, além disso, a quase totalidade das obras e bens que possuíamos (edifícios, viaturas, gado, horta...). Devido à falta de comunicação e à insegurança provocada pela guerrilha, ficamos isolados uns dos outros. Em Outubro de 1976 alguns dos nossos – da zona do Bié – sob pretexto de que estavam a «colaborar com o inimigo» (os guerrilheiros), afinal por ajudar indistintamente o povo, foram presos juntamente com 4 religiosas, duas delas médicas do Vouga.
Uma vez postos em liberdade, embora sob vigilância, pensou-se abrir uma nova brecha num ambiente menos tenso: a cidade do Huambo (Nova Lisboa). Aqui se iria lançar – outra vez a partir do zero – uma nova plataforma e estilo de trabalho, com particular incidência para a atenção vocacional. Foi assim que surgiu o modesto Centro de Formação, hoje com 6 jovens seminaristas maiores (um professo, um noviço e 4 aspirantes). Ao mesmo tempo os padres desta Casa de Formação têm o encargo pastoral de 3 Bairros da perir1eria da cidade e dão aulas no Seminário Maior Interdiocesano.
Entretanto, um outro padre continuava firme na Missão do Cúchi; mais tarde, dado o envolvimento generalizado da guerrilha naquela zona, teve que recuar para o Menongue, capital do Cuando-Cubango, o único reduto onde poderia continuar a trabalhar juntamente com o bispo da nova diocese e outros 3 sacerdotes diocesanos. Pelo ano de 1977 viria também uma Comunidade de Irmãs Beneditinas.
Subindo à capital da jovem república, Luanda, ali permaneceu sempre um padre, o pároco da Sagrada Família, que neste momento conta com o esforço de um outro confrade redentorista português, vindo pela primeira vez em 1978.
No ano anterior recebemos a grata notícia da fundação duma Comunidade de Irmãs de S. José de C1unf, que viriam integrar-se na pastoral desta Paróquia.
Também no ano de 1978 tínhamos um outro padre redentorista, brasileiro, vindo pela primeira vez, ao qual se seguiu um segundo, também brasileiro, em 1979. Foi um enriquecimento muito valioso.
Vice-Provincia de Luanda (1966)
No dia 16 de Janeiro de 1966 a Missão de Angola foi elevada à categoria de Vice-Provincia, sendo seu primeiro Vice-Provincial o Pe. José Rodriques Pieres; sucederam-lhe no cargo os Padres Luís Guerreiro, José Queiroz Alves, Cipriano Jamba…
Primeiros Redentoristas Angolanos
José Bernardo Kambundi
Cipriano José Jamba
João Baptista Catombela
Miguel Sakabalo
Guilherme Salussasse
Paulino Cambungo
João Félix
Luís Casimiro