Congregação dos Missionários Redentoristas em Portugal
 
Congregação do Santíssimo Redentor
Redenção

A LINGUAGEM DO ANTIGO TESTAMENTO
A figura do redentor – go’el, em hebraico – a princípio não possuía nenhuma conotação religiosa. Num povo de natureza tribal como o de Israel, não existia um sistema legal estabelecido e instituído. A defesa dos direitos de cada um (a sua vida e propriedades, sobretudo), dependia da sua força e das suas relações, principalmente familiares.

O go’el era um parente ou familiar próximo, de preferência o irmão, a quem competia assegurar os direitos de alguém que caia em problemas. É uma figura instituída nos livros do Levítico e Deuteronómio. Caso um indivíduo era vendido como escravo (por causa de dividas, por exemplo), o go’el, o parente mais próximo deveria pagar o resgate para libertá-lo. Se perdesse as suas propriedades, o go’el deveria readquiri-las. Se um indivíduo fosse assassinado, o parente deveria vingá-lo. Também aqui se insere a lei do Levirato: Quando dois irmãos moram juntos e um deles morre sem deixar filhos, a viúva não sairá de casa para se casar com um estranho; o seu cunhado casar-se-á com ela, cumprindo o dever de cunhado.  O primogénito que nascer receberá o nome do irmão morto, para que o nome deste não se apague em Israel (Dt 25, 5-6). Em síntese, o redentor surge como a figura de alguém que deve preservar e defender os direitos de um próximo em problemas, resgatando-o.

No contexto da Aliança em Israel, Javé é considerado e aclamado como o Redentor de todo o Povo. Esta aclamação parte da experiencia de libertação do Egipto, em que o povo, mantido como escravo, é resgatado da opressão graças à iniciativa de Javé. Muito tempo depois, o rei do Egipto morreu. Os filhos de Israel gemiam sob o peso da escravidão, e clamaram; e, do fundo da escravidão, o seu clamor chegou até Deus. Deus ouviu as suas queixas e lembrou-Se da aliança que fizera com Abraão, Isaac e Jacob. Deus viu a condição dos filhos de Israel e teve compaixão dele (Ex 2, 23-25). Em virtude da sua Promessa a Abraão, Deus abraça os direitos do povo e os põe em prática. Na verdade, Israel faz a experiencia de que, sem esta acção libertadora de Javé a quem atribuem a sua saída do Egipto, simplesmente não existiriam como Povo.

A Aliança que Israel celebra com Javé no Sinai, transforma-os em partners. Javé compromete-se com o destino do povo, com a sua sobrevivência; Israel compromete-se em viver os mandamentos da Lei, e a não aceitar as divindades dos povos vizinhos. Portanto, se Me obedecerdes e observardes a minha aliança, sereis minha propriedade especial entre todos os povos, porque a terra toda Me pertence. Vós sereis para Mim um reino de sacerdotes e uma nação santa (Ex 19, 5-6).

Para celebrar esta Aliança, relata o livro do Êxodo que Moisés realizou o ritual de um sacrifício de comunhão: Moisés tomou metade do sangue e colocou-o em bacias; a outra metade do sangue, derramou-a sobre o altar. Pegou no livro da aliança e leu-o ao povo. Eles disseram: «Faremos tudo o que Javé mandou e obedeceremos».  Moisés tomou o sangue e aspergiu com ele o povo, dizendo: «Este é o sangue da aliança que Javé faz convosco através de todas estas cláusulas» (Ex 24, 6-8).

É muito importante compreendermos o significado desta linguagem de sacrifícios, cultos e sangue: estará presente por toda a Bíblia, aparecerá nos escritos do Novo Testamento para falar da Redenção em Cristo, e fará parte da linguagem teológica. O sangue não possui na Bíblia a imagem actual de violência, sofrimento e morte. Pelo contrário, para um judeu, é o melhor símbolo para falar da vida, do que há de mais vital num ser. Guarda-te de comer o sangue, porque o sangue é a vida, e não deves comer a vida com a carne (Dt 12, 23). Nos sacrifícios no templo de Jerusalém, os animais eram mortos, não tanto pela aniquilação, mas pelo seu sangue que era derramado no altar, e que exprimia a vida em comunhão com Deus. A pessoa que realizava um sacrifício, não se identificava com o animal morto, mas com o seu sangue, no qual colocava a sua vida, que entrega a Deus em comunhão para que a santifique. Porque o sangue é a vida do corpo, eu vo-lo concedo, a fim de vos servir de purificação sobre o altar, pois o sangue é que faz expiação porque é vida (Lv 17, 11). Mesmo a palavra sacrifício, no original latino, vem de sacrum-facere, fazer ou tornar sagrado. O seu significado na Antiguidade não é o mesmo que lhe atribuímos agora. Os sacrifícios cultuais, no Templo, estão em função da Aliança com Deus, a sua linguagem é a linguagem da comunhão, e não da morte. Mesmo compreender o significado semita de sangue nos ajuda a compreender a linguagem da Eucaristia.

Mas regressemos a Iavé como Redentor. São duas as experiencias fundamentais que o povo bíblico faz – e nós hoje também: a existência do sofrimento e a existência do pecado. Aqui, o pecado surge não tanto como infracção jurídica de uma determinada lei tipo código romano, mas como uma condição que impede o ser humano de o ser plenamente, ou seja, de viver em comunhão com Deus. O povo descobre-se, na sua história, pecador e infiel à Aliança: constrói altares aos ídolos estrangeiros, oprime o pobre, o órfão e a viúva, não constrói na Terra Prometida aquele Reino que corresponderia à Aliança. Os profetas surgem como a voz de Deus que acusa o Povo da sua infidelidade e o chama a regressar à Aliança.

No entanto, o anúncio profético não se limita a acusar o povo. Proclama, em primeiro lugar, a absoluta fidelidade de Deus à sua Aliança. Mesmo que o Povo não respeite a Aliança, Deus permanece fiél. Ele é a Rocha Firme. Os seus sentimentos para com o povo não mudam. O Deus que se revelou no Sinai, o Deus que libertou Israel do Egipto, continua a ser o Deus da Aliança: Como poderia Eu abandonar-te, Efraim? Como poderia entregar-te a outros, Israel? Será que Eu poderia tratar-te como a Adama? Eu poderia tratar-te como a Seboim? O meu coração salta no meu peito, as minhas entranhas comovem-se dentro de Mim. Não Me deixarei levar pelo ardor da minha ira, não vou destruir Efraim. Eu sou Deus, e não um homem. Eu sou o Santo no meio de ti, e não um inimigo devastador (Os 11, 8-10). Deus permanece fiel à Aliança, e esta fidelidade não depende de nenhum acto humano, de nenhuma compensação, mas simplesmente do seu Amor, da sua Misericórdia – as entranhas maternais de Deus, tão importantes para os profetas.

Porque o teu marido é o teu Criador: o seu nome é Javé dos exércitos. Quem te redime é o Santo de Israel; Ele é chamado o Deus de toda a terra. Javé chama-te como a esposa abandonada e abatida, como a esposa da juventude, a repudiada: assim diz o teu Deus. Por um instante te abandonei, mas com imensa compaixão torno a chamar-te. Num ímpeto de ira, por um momento escondi de ti o meu rosto; agora, com amor eterno, volto a compadecer-Me de ti, diz Javé, teu Redentor. Como no tempo de Noé, agora faço a mesma coisa: jurei que as águas do dilúvio nunca mais iriam cobrir a Terra; da mesma forma, agora juro que não deixarei inflamar-se a minha ira contra ti e nunca mais te vou castigar. Mesmo que os montes se retirem e as colinas vacilem, o meu amor nunca se vai afastar de ti, a minha aliança de paz não vacilará, diz Javé, que Se compadece de ti (Is 54, 5-10).

Além disso, essa fidelidade de Deus significa que Ele se torna o Redentor, o Go’el de Israel. Ele está presente e torna-se o defensor dos direitos daqueles a quem ninguém defende: o pobre, o órfão e a viúva. Os profetas chamam o Povo à conversão, a regressar à Aliança, para que Deus os liberte do seu pecado! Na linguagem bíblica, só Javé pode vencer o pecado, nunca o próprio pecador. Eis a Redenção, eis a Aliança: o Povo aproxima-se de Javé, para que a sua santidade os liberte do pecado: Lavai-vos e purificai-vos, tirai da frente dos meus olhos as maldades que praticais. Deixai de fazer o mal,  aprendei a fazer o bem: buscai o direito, socorrei o oprimido, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva.  Então vinde e discutiremos - diz Javé. Ainda que os vossos pecados sejam vermelhos como a púrpura, ficarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o escarlate, ficarão brancos como a lã (Is 1, 16-18). O pecador nada mais pode fazer do que voltar-se para Iavé, entregar-se nas suas mãos para que o liberte do seu pecado; e como cada individuo, assim todo o Israel. É Deus quem perdoa e reconcilia o Povo libertando-o do seu pecado! Eis a linguagem da Redenção.

Javé, se levas em conta as culpas, quem poderá resistir? Mas de Ti vem o perdão, e assim infundes respeito. A minha alma espera em Javé, espera na sua Palavra. A minha alma aguarda o Senhor, mais que os guardas pela aurora. Mais que os guardas pela aurora, aguarde Israel a Javé. Pois de Javé vêm a graça e a redenção em abundância. Ele vai redimir Israel de todas as suas culpas (Sal 130).

È importante libertarmos o nosso pensamento e a nossa linguagem de tudo o que são noções pagas. A libertação do pecado nunca è acção do pecador mas de Deus, que santifica o pecador que se arrepende e converte. A prática cultual não servia para mudar os sentimentos de Deus, mas era manifestação da comunhão de vida – representada pelo sangue – que unida à santidade de Deus vence o pecado. O Deus da Biblia è a Rocha Firme, que não muda os seus sentimentos e permanece fiel à Aliança. Como Redentor, defende os direitos daqueles por quem ninguém se preocupa – os pobres, órfãos e viúvas – suscita profetas e servos que dêem a sua vida pela Aliança. O Senhor Javé deu-me a capacidade de falar como discípulo, para que eu saiba ajudar os desanimados com uma palavra de coragem. Cada manhã Ele desperta os meus ouvidos para que eu possa ouvir como discípulo. O Senhor Javé abriu os meus ouvidos e eu não fiz resistência nem recuei (Is 50, 4-5).

Jesus, o Servo Fiel
É neste contexto de Aliança e presença de Deus como Redentor do seu Povo que Jesus compreende a sua missão e os Evangelhos a lêem. Pois este homem não veio para ser servido mas para servir e dar a sua vida como resgate por todos (Mc 10, 45). Jesus faz a experiencia, guiado pelo Espírito Santo que o habitava, de possuir uma missão especial: è o portador de todas as promessas messiânicas, nele acontece a plenitude dos dons de Deus ao seu Povo. Está inaugurado o Reino de Deus: Se eu expulso os demónios com o dedo de Deus, è porque chegou a vós o Reino de Deus (Lc 11, 20).

Toda a vida e ministérios de Jesus são a proclamação e realização da salvação prometido por Deus. È essa a linguagem dos milagres: numa época pré-cientifica, todas as doenças são consideradas expressão do mal, fruto do pecado, pessoal ou dos antepassados: Mestre, quem pecou, para que nascesse cego: ele ou os seus pais? (Jo 9, 2). Eram, por isso, causa de separação e exclusão da sociedade, e considerados impuros pela lei cultual. Mas Jesus aproxima-se, relaciona-se, toca e deixa-se tocar: Um leproso se aproximou dele, prostrou-se diante dele e lhe disse: Senhor, se queres podes curar-me. Ele estendeu a mão e o tocou, dizendo: Quero, fica curado (Mt 8, 2-3).

A linguagem da cura è a linguagem da Redenção, do perdão dos pecados que liberta o Homem e o conduz a uma vida nova: Que é mais fácil dizer ao paralítico: "Os teus pecados estão perdoados", ou dizer: "Levanta-te, pega na tua cama e anda"?  Pois bem, para que saibais que o Filho do Homem tem poder na Terra para perdoar pecados - disse Jesus ao paralítico - Eu te ordeno: Levanta-te, pega na tua cama e vai para casa».  O paralítico então levantou-se e, pegando na sua cama, saiu à vista de todos. E todos ficaram muito admirados e louvaram a Deus, dizendo: «Nunca vimos uma coisa assim!» (Mc 2, 9-12). Jesus é o Redentor, aquele que se entrega ao serviço dos que não tem direitos, dos que não tem ninguém que os defenda. Mateus atribui-lhe a missão do Servo de Iavé de Is 53: Ele assumiu nossas fraquezas e carregou nossas enfermidades (Mt 8, 17). Quando Jesus fala de dar a sua vida, de se entregar, fala desta missão junto dos pobres e abandonados. Assumiu também a vocação profética de denunciar as causas e estruturas que tornavam pesada a vida do povo com quem lidava: as intermináveis prescrições legais, a corrupção das classes superiores que colaboravam com o poder romano, etc. Jesus respondeu: «Ai de vós também, doutores da lei! Porque impondes sobre os homens cargas insuportáveis e vós mesmos não tocais essas cargas nem com um só dedo.  Ai de vós, porque construís túmulos para os profetas; no entanto, foram os vossos pais que os mataram (Lc 11, 46-47).

É à luz desta liberdade com que Jesus vive o seu ministério que devemos ler a sua morte violenta. Certamente Jesus sabia que estava a colocar “a cabeça na boca do lobo”. A liberdade com que lida com a questão do Sábado: Jesus entrou de novo na sinagoga, onde estava um homem com uma mão ressequida. Havia ali algumas pessoas a espiar, para verem se Jesus ia curá-lo em dia de sábado, e assim poderem acusá-lo. Jesus disse ao homem da mão ressequida: «Levanta-te e vem para o meio». Depois perguntou aos outros: «O que é que a Lei permite no sábado: fazer o bem ou fazer o mal, salvar uma vida ou matá-la?» Mas eles não disseram nada. Jesus então olhou ao seu redor, cheio de ira e tristeza, porque eles eram duros de coração. Depois disse ao homem: «Estende a mão». O homem estendeu a mão e ela ficou boa. Logo que saíram da sinagoga, os fariseus, com alguns do partido de Herodes, fizeram um plano para matar Jesus (Mc 3, 1-6). O acto que faz no átrio do Templo, relatado pelos quatro evangelistas: Chegaram a Jerusalém. Jesus entrou no Templo e começou a expulsar os que vendiam e os que compravam no Templo. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos vendedores de pombas. Ele não permitia que se transportasse qualquer objecto através do Templo. E ensinava o povo, dizendo: «Não está nas Escrituras: "A minha casa será chamada casa de oração para todos os povos"? No entanto, vós fizestes dela um covil de ladrões».  Os sumos sacerdotes e os doutores da Lei ouviram isto e começaram a procurar um modo de O matar. Mas tinham medo de Jesus, porque a multidão estava maravilhada com os seus ensinamentos (Mc 11, 15-18).

Jesus identifica-se numa Tradição profética com cores de violência. Desde Jeremias a João Baptista, muitos foram os “servos” enviados por Javé ao seu Povo e que não foram acolhidos: Naquele momento, alguns fariseus aproximaram-se e disseram a Jesus: «Parte daqui, porque Herodes quer matar-Te». Jesus disse: «Ide dizer a essa raposa: eu expulso demónios e faço curas hoje e amanhã; e no terceiro dia terminarei o meu trabalho. Entretanto preciso de caminhar hoje, amanhã e depois de amanhã, porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém» (Lc 13, 32-34). É a esta luz que devemos ler a morte violenta de Jesus, e é a esta luz que Ele a insere na sua missão: deve morrer porque assim deve viver, a morte é o destino reservado a uma vida profética! Vemos no Monte das Oliveiras como uma morte violenta não era uma coisa “agradável” para Jesus – não o podia ser, não o é para ninguém! Mas era a consequência final da sua vida, feita de rejeições e perseguições, e renegá-la era renegar a sua vida. Não é por acaso que o autor do livro do Apocalipse chama a Jesus de a testemunha (martur, mártir) fiel (Apc 1, 5).

Mas conhecendo o final que reservam ao seu ministério, Jesus conhece também a missão especial que lhe foi atribuída pelo Pai. Não só é um profeta isolado na história do Povo, é o Messias: nele se realizam todas as promessas de Deus, nele se inicia uma nova realidade. O Reino está inaugurado. Deus não abandonará o seu servo fiel e justo: Ele é o Cristo, o Ungido por excelência pelo Espírito: O Enviado de Deus fala das coisas divinas, pois Deus não dá o Espírito por medida (Jo 3, 34). Homens de Israel, escutai estas palavras: Jesus de Nazaré foi um homem que Deus confirmou entre vós, realizando por meio d'Ele os milagres, prodígios e sinais que bem conheceis. E Deus, com a sua vontade e presciência, permitiu que Jesus vos fosse entregue, e vós, através de ímpios, mataste-l'O, pregando-O numa cruz. Deus, porém, ressuscitou Jesus, libertando-O das cadeias da morte, porque não era possível que ela O dominasse (Act 2, 22-24). Os seus discípulos devem continuar a sua Missão de proclamar o Reino de Deus e curar os enfermos (Lc 9, 2).

É esta dinâmica que Jesus celebra e proclama na Ceia Pascal: Esta é a taça da Nova Aliança selada com o meu sangue, que é derramado por vós (Lc 22, 20). O Sangue, a Vida de Jesus, a Vida que o habita, que santifica a todos os que comungam com Ele. Comunhão que não termina ali, mas que ali verdadeiramente começa. Fazei isto em memória de mim (1Cor 11, 24). A sua Ressurreição é o acontecimento fundamental que inaugura a Nova Aliança: é o princípio da Salvação, de Redenção.    

A MORTE DE JESUS
Os discípulos sentiram a morte de Jesus como um fracasso. Esperavam que Jesus fosse o Messias, isto é, o filho de David que viria subir ao trono. Dois deles tentam mesmo garantir os primeiros lugares na corte. Os outros dez protestam, pois também eles esperavam coisa parecida (Mc 10, 35-45). Mas, Jesus morreu sem subir ao trono. Também para os discípulos isto era a prova de que Deus não apoiara as suas pretensões messiânicas. Aliás, isto não era novo. Umas décadas antes também apareceram dois pseudo messias que reuniram à sua volta bastantes aderentes. Foram mortos e tudo ficou na mesma (Act 5, 36-37).

Jesus teve consciência de que planeavam a sua morte. Mas nunca interpretou esta morte como uma exigência de Deus Pai. Pelo contrário, interpretou-a como um crime perpetrado pelos sacerdotes, doutores da Lei, fariseus e outros chefes do povo. O contexto de despedida que dominou a Última Ceia revela que Jesus tinha consciência de que a sua missão histórica estava a chegar ao fim (1 Cor 11, 23-25). Mas os relatos revelam que Jesus não via a sua morte como um fracasso. Pelo contrário, dão a entender que Jesus estava seguro de que Deus ia restaurar e glorificar a sua vida. Por isso faz alusão ao vinho do banquete no Reino de Deus (Lc 22, 14-18). Mas os discípulos não entendiam esta linguagem. Esta resistência dos Apóstolos leva Jesus a interpelar Pedro com dureza, chamando-o de Satanás (Mt 16, 22-23).

Mas a experiência pascal veio alterar tudo. Esses homens que na quinta-feira à noite fugiram e, cobardemente, negaram conhecer Jesus, voltam dois dias depois, no domingo de Páscoa, dizendo que Jesus é o Messias e mostrando-se dispostos a dar a vida por esta afirmação. Por detrás de uma transformação tão radical só pode ter acontecido uma destas duas coisas: ou enlouqueceram devido ao trauma sofrido com a perda de Jesus, ou aconteceu realmente um milagre que os transformou radicalmente.

Loucos não estavam, pois, apesar de serem quase analfabetos, argumentavam com as Escrituras, ao ponto de confundirem os doutores da Lei e os sacerdotes. Então só pode ter acontecido um milagre. É esta a melhor confirmação histórica da ressurreição de Jesus. Antes da Páscoa, os discípulos entendiam as coisas segundo os critérios da carne e do sangue (Mt 16,23). Mas, após a Páscoa, diz o evangelho de João, o Espírito Santo vai conduzi-los para a verdade total (Jo 16, 13). Após a Páscoa, a compreensão dos discípulos sobre a missão messiânica de Jesus, começa a coincidir progressivamente com a compreensão que o Jesus histórico tinha desta missão. Este ponto de referência é excelente para entendermos até onde terá chegado a consciência de Jesus acerca da sua pessoa e da sua missão messiânica.

Morte de Jesus e Salvação
A morte de Jesus, no Evangelho de João é o momento da sua glorificação (Jo 7, 34; 8, 21-22; 14, 2-4). É condição essencial para a difusão do Espírito (Jo 16, 7-8; cf. 7, 37-39).
Desde o começo da Humanidade que o Espírito Santo actua na história humana. Em primeiro lugar como intervenção especial de Deus na criação do Homem. Mais tarde, no povo Bíblico, actua como presença revelacional. Com o acontecimento da morte e ressurreição de Jesus, o Espírito Santo realiza a dinâmica divinizante da Humanidade. É o momento em que a Humanidade entra na plenitude dos tempos, isto é, na fase dos acabamentos.

Para actuar de modo intrínseco no interior do Homem, o Espírito Santo tinha de interagir connosco em grandeza de onda humana. Isto só aconteceu devido ao facto de Jesus ser um homem em tudo igual a nós excepto no pecado. Por outro lado, isto só podia acontecer no momento em que Jesus, pelo acontecimento da morte, se libertasse das coordenadas limitativas do eu individual: coordenadas biológicas, rácicas, linguísticas, culturais e espacio-temporais.

Foi exactamente o que aconteceu pelo mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo. É este o sentido da afirmação do Credo, segundo a qual Jesus, ao morrer, desceu à mansão dos mortos. Por outras palavras, foi nesse momento que Jesus, homem como nós, entrou nas coordenadas da comunhão Universal, divinizando a Humanidade. É esta a plenitude dos tempos, isto é, a fase dos acabamentos do projecto humano. Como vemos, a morte de Jesus era condição essencial para acontecer a salvação da Humanidade. Mas isto não significa que tinha de ser aquela morte cruel e muito menos pensar que esta foi uma exigência de Deus Pai.

Desde os primórdios da revelação que Deus se manifestou contra os sacrifícios humanos. Com efeito, logo no começo, Deus rejeitou o sacrifício de Isaac. Segundo este relato, foi a fidelidade de Abraão que agradou a Deus e não o sacrifício de seu filho (cf. Gn 22, 1-19). Do mesmo modo, podemos dizer que a fidelidade incondicional de Jesus Cristo à missão que Deus lhe confiara é a fonte da nossa redenção. É este o Novo Adão que nos reconduziu a Deus (Rm 5, 17-19). Podemos resumir esta ideia dizendo que, o que agradou a Deus em Jesus Cristo foi a sua fidelidade incondicional à vontade do Pai e não a morte violenta que sofreu.

A REDENÇÃO COMO ACÇÃO DO ESPÍRITO SANTO
Quando falamos de Redenção, há determinados erros que devemos evitar e corrigir, na nossa linguagem como no nosso pensamento:
• Anulando ou esquecendo todo o ministério de Jesus, a sua acção, o seu anuncio: é ali que encontramos o modo como a Redenção acontece, no contacto pessoal libertador com todos os marginalizados, pecadores;
• Concentrando-nos na morte na Cruz e esquecendo o processo pascal de Ressurreição de Jesus, separando Redenção e Salvação como assunção da Humanidade na Comunhão Eterna e Plena com Deus;
• Finalmente, colocando a Redenção como um acto acontecido num dado momento do passando, esquecendo que continua hoje, que é um processo apenas inaugurado por Jesus!

Sobretudo, compreendendo a linguagem bíblica e a interpretação que o Novo Testamento dá da Salvação inaugurada em Jesus, damo-nos conta:
• A Redenção não é uma acção, um sacrifício realizado pelo Homem, mas por Deus, e não tem como fim mudar os sentimentos de Deus, mas transformar e reconciliar o Homem!
• A destruição do pecado acontece pelo Amor de Deus que é uma Pessoa Divina, que actua no nosso interior gerando-nos na santidade, que nos vem da Comunhão com Cristo Ressuscitado, e que se chama Espírito Santo!

Para isso é também importante olharmos para o pecado do Homem segundo os olhos de Deus: considerando-o como vitima e não como culpado, cuja resposta é a cura e libertação, e nunca o castigo e a condenação. É belo como, falando do ministério da reconciliação, Afonso considere o confessor mais como médico que como juiz (Prática do Confessor). A Adúltera apresentada a Jesus no Templo é recriada como uma pessoa nova pela força do perdão: ela, que estava condenada, é salva para a vida: Tampouco eu te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais (Jo 8, 11). Do mesmo modo, o filho que regressa a casa recebe imediatamente a melhor veste, o anel no dedo e as sandálias nos pés, da parte do Pai que o recebe lançando-se ao pescoço e beijando-o (Lc 15, 11-32). É esta a acção de Deus connosco, é este o mistério da Redenção!

“É a santidade santificante de Deus que vem antes, e as considerações sobre o pecado a expiar vem apenas depois. Aquela santidade é um amor sem fronteiras, totalmente gratuito; um amor que invade o mundo antes de qualquer reparação do pecado. Este vem reparado, abolido no acolher que se faz amor. Jesus é o mediador daquele acolhimento” (F.X. Durrwell cssr). O Espírito Santo comunicado na Páscoa de Jesus é a Vida Divina, Vida do Amor Eterno e Pleno do Pai e do Filho, que circula nos circuitos interior-relacionais da Humanidade e a transforma. Nesta Comunhão Eterna e Plena do Pai e do Filho a que somos chamados e assumidos, está a melhor “medicina” que se possa imaginar para todo o pecado!

«Consagra-os na verdade: a verdade é a tua Palavra. Assim como Tu Me enviaste ao mundo, Eu também os envio ao mundo. Eu consagro-Me por eles, a fim de que também eles sejam consagrados na verdade. Eu não Te peço só por estes, mas também por aqueles que vão acreditar em Mim por causa da sua palavra, para que todos sejam um, como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti. E para que também eles estejam em Nós, a fim de que o mundo acredite que Tu Me enviaste. Eu mesmo lhes dei a glória que Tu Me deste, para que eles sejam um, como Nós somos um. Eu neles e Tu em Mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que Tu Me enviaste e que os amaste, como Me amaste a Mim. Pai, aqueles que Tu Me deste, quero que eles estejam comigo, onde Eu estiver, para que eles contemplem a glória que Me deste, pois Me amaste antes da criação do mundo» (Jo 17, 17-25).

“O pecado não existe em si próprio, de modo a poder cancelá-lo ou não o imputar; existem homens pecadores, mortos à Vida Eterna: o seu pecado vem expiado quando Deus converte o pecador, fazendo-o viver na sua vivificante santidade” (F.X. Durrwell cssr). A destruição do pecado não acontece pela morte do pecador, como pretendia a lei mosaica e como anunciava João Baptista (Mt 3, 10). A destruição do pecado acontece pela conversão do pecador que, na experiencia do Amor e do Perdão de Deus no seu interior, através do Espírito Santo, iluminada pela Palavra do Evangelho, mediada pelos discípulos de Jesus que formam o seu Corpo e acolhida na Fé, o conduz a viver e a construir-se no Amor, realizando a sua vocação e nascendo como o Homem Novo.

Agindo no coração do Homem, todas as suas acções e opções, todas as relações que vive, a história que constrói, são convertidas pelo Espírito Santo. É aí que acontece a sua purificação: Jesus disse: «Será que nem vós entendeis? Não compreendeis que nada do que vem de fora e entra numa pessoa pode torná-la impura, porque não entra no seu coração, mas no estômago, e vai para a privada?» (Assim Jesus declarava que todos os alimentos eram puros). Jesus continuou a dizer: «O que sai da pessoa é que a torna impura. Pois é de dentro do coração da pessoa que saem as más intenções, como a imoralidade, roubos, crimes, adultérios, ambições sem limite, maldades, malícia, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo. Todas estas coisas más saem de dentro da pessoa, e são elas que a tornam impura» (Mc 7, 18-23).

“Agora, na Humanidade, a justiça é formada pela Fé, Esperança e Caridade num caminho teologal, e torna-se diferente como resultado. Os seus símbolos são a Incarnação e a Ressurreição, que juntos são a transfiguração e renovação do nosso mundo presente” (Kevin O’Shea cssr). Jesus confia aos seus discípulos, guiados pelo Espírito, de construir este Reino de justiça, paz e alegria do Espírito Santo (Rm 14, 17), vivendo à imagem do Amor de Deus e em comunhão com Ele. Agora vemos como em espelho e de maneira confusa; mas depois veremos face a face. Agora o meu conhecimento é limitado, mas depois conhecerei como sou conhecido. Agora, portanto, permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor. A maior delas, porém, é o amor (1Cor 13, 12-13).

Não é possível separar Redenção de Salvação, como não é possível separá-la da Ressurreição. Estamos no coração da fé crista. A acção e o projecto de Deus são uma acção e um projecto de Amor, que irrompe na Humanidade em Cristo e a transforma. O Projecto Criador chega à sua plenitude com a ressurreição em toda a Economia da Salvação, como diz S. Ireneu. Se o pecado entra na história humana, Deus diz: é mau, as minhas criaturas estão a sofrer, mas o Amor é mais forte! A acção do Espírito que gera e ressuscita os homens como filhos, também os cura de todo o que não lhes deixa ser felizes.

“Quando aconteceu o pecado, Deus livremente recusou-se a permitir que o pecado interferisse com o seu plano original para a Criação. Recusou-se a manter o pecado contra a Humanidade pecadora. Em vez disso, em virtude do mesmo princípio da bondade e justiça de Deus, Deus utilizou o pecado como uma ocasião para uma maior bondade, ou melhor, para uma continuação sem falha da sua bondade e uma amplificação transcendente dela. Deus insiste no Dom e a doação continua. É uma recapitulação do acto original, agora tornada mais visível pelo uso bondoso da nova ocasião. Deste modo Deus permite que a Humanidade pecadora regresse à sua Origem Criadora; Deus conduz-la ao movimento original do Divino Amor” (Kevin O’Shea cssr).

O Reino inaugurado em Cristo, Reino de Comunhão, torna-se uma frente de humanização e libertação para todos os oprimidos, escravizados e abandonados deste mundo – como Jesus bem o demonstrou na Galileia dos Gentios.

O papel dos Redentoristas
A Constituição 2 chama-nos “colaboradores, companheiros e ministros de Jesus Cristo na grande obra da redenção”. Como vimos, o mistério da Redenção como acção do Espírito que, em comunhão com Cristo transforma os corações, continua hoje. Precisa de testemunhas, de pessoas que se coloquem ao serviço dos irmãos como mediação do Amor, da Justiça e do perdão de Deus. É essa a Missão dos discípulos de Cristo que formam o seu Corpo no mundo: são sua presença e continuadores da sua missão de anunciar e construir o Reino. A missão da Congregação está no coração deste mistério.

Existem muitas formas de colaborar com o Espírito de Cristo na emergência de um Reino de justiça, paz e alegria que vença as forças de pecado, sofrimento e morte deste mundo. Os redentoristas abraçam o anúncio explícito do Evangelho, meio privilegiado de colaborar com o Espírito, junto daqueles a quem faz mais sentido a linguagem da Redenção: os pobres, excluídos e abandonados. “Para que possam cooperar sempre mais plenamente na realização do mistério da redenção de Cristo, incansavelmente rogarão ao Espírito Santo, que é Senhor dos acontecimentos e é quem dá a palavra adequada e abre os corações” (Const. 10).

O anúncio da Palavra do Evangelho oferece às pessoas a alegria de experimentar o Amor e o Perdão do Pai, e ilumina-as para colaborarem com a acção do Espírito Santo dentro de si, que as conduz a viver a sua vocação a realizarem-se como pessoas felizes e livres, no amor e na verdade. “Eles sabem que o mistério do Homem e a verdade da sua vocação integral somente se desvendam verdadeiramente no mistério do Verbo Incarnado. Desse modo tornam presente a obra da redenção em sua totalidade, ao darem testemunho de que aquele que segue a Cristo, homem perfeito, torna-se ele mesmo mais homem” (Const. 19).

Iluminando a vocação de cada ser humano, sobretudo dos pobres, pelo anúncio do Evangelho, os redentoristas partilham o convite de Cristo a participar nesta nova dinâmica do Reino, que transforma toda a realidade humana. Vivendo essa vocação como discípulos, em Igreja, constroem comunidades que os redentoristas devem animar, e que são sinal do Reino. A conversão pessoal, porém, se realiza na comunidade eclesial. “Por isso a finalidade de toda a obra missionária é suscitar e formar comunidades tais que levem vida digna da vocação a que foram chamadas, e exerçam a tríplice função que lhes foi atribuída pelo próprio Deus: sacerdotal, profética e régia” (Const. 12).

Como vemos, a missão redentorista do anúncio da Palavra torna-se um veículo fundamental para a acção do Espírito. Pela interpelação da Palavra, o crente que a acolhe abre-se à acção do Espírito pela conversão do coração: “Dessa forma os Redentoristas são “apóstolos da conversão”, pois sua pregação tem como finalidade principal levar os homens à opção radical ou à decisão de vida por Cristo e conduzi-los com vigor e, ao mesmo tempo, com suavidade à conversão plena e contínua” (Const. 11). Ora, como poderão invocar Aquele em quem não acreditaram? Como poderão acreditar, se não ouviram falar d'Ele? E como poderão ouvir, se não houver quem O anuncie? Como poderão anunciar se ninguém for enviado? (...)A fé depende, portanto, da pregação, e a pregação é o anúncio da palavra de Cristo (Rm 10, 14.17). É o modelo ideal de Act 2: da pregação dos Apóstolos resulta a conversão dos que acolhem, baptizam-se e formam comunidades que se tornam, de verdade, presença do Reino na história.

“A missão dos Redentoristas é levar as pessoas ao ponto crucial da vida cristã: o amor de Deus que é poderosamente revelado em Jesus Cristo. No centro da vida e do ministério da Congregação está o próprio mistério da redenção. Nós Redentoristas nascemos no coração de um ardoroso discípulo de Jesus, que ardia de zelo pela redenção de todos, com especial preferência pelos pobres abandonados” (Comm. Redenção n°15).

Os redentoristas têm uma Boa-Nova a anunciar. Dar-se conta e experimentar esta realidade, esta Salvação a acontecer, necessariamente os impele a dar a sua vida. O seu papel continua a ser importante, o seu carisma continua a existir, o Espírito continua a agir por meio deles: continuam a ser precisos profetas que sejam voz do Espírito às Igrejas (Apc 2, 11) para que sejam presença no mundo da Redenção de Cristo junto dos abandonados e excluídos. A estes a Congregação continua a ser enviada, porque continuam a não conhecer a Boa-Nova do Messias que é de verdade Boa-Notícia. E nas nossas vidas, nas nossas comunidades, também continua a ser preciso abrirmo-nos a essa acção renovadora do Espírito que os leve à fidelidade dos vencedores do Cordeiro.

SALMO 130
Na fundação da Congregação, Afonso escolheu, para o seu escudo, uma frase do Salmo 130 que se tornaria no lema dos redentoristas: Com Ele é abundante a Redenção. Eis o salmo:

Do fundo do abismo clamo a ti, Senhor!
Senhor, ouve a minha prece!
Estejam teus ouvidos atentos
à voz da minha súplica!

Se tiveres em conta os nossos pecados,
Senhor, quem poderá resistir?
Mas em ti encontramos o perdão;
por isso te fazes respeitar.

Eu espero no Senhor! Sim, espero!
A minha alma confia na sua palavra.
A minha alma volta-se para o Senhor,
mais do que a sentinela para a aurora.

Mais do que a sentinela espera pela aurora,
Israel espera pelo Senhor;
porque nele há misericórdia
e com Ele é abundante a redenção.
Ele há-de livrar Israel
de todos os seus pecados.

Já vimos que a experiencia fundamental que Israel faz da Redenção parte da Libertação do Egipto e da Aliança com Javé. Deus toma partido por um povo de escravos, elege-o e liberta-o por pura Graça. Israel descobre que, sem a intervenção livre e gratuita de Deus, nunca faria a experiencia de ser um Povo como tal, com uma terra, uma lei e uma liberdade. Do mesmo modo, perante a sua infidelidade, Israel experimenta que é apenas graças ao Perdão e à Fidelidade de Deus que a Aliança selada no Sinai continua ao longo da sua história; Deus continua a renovar a sua Aliança com Israel apesar da infidelidade desta, apenas pela sua Graça e Perdão.

O salmista parte desta experiencia do seu povo e vive-a de modo pessoal; também ele, como todo o povo, faz a experiencia do pecado que, mais que uma infracção juridica ou moral, é uma experiencia de sofrimento, de pobreza e de morte. Sabe que não pode corresponder, por si, à Aliança selada com Deus no seu Amor: se fosse por nós, Deus nunca poderia arriscar-se num projecto destes: Se tiveres em conta os nossos pecados, Senhor, quem poderá resistir?

Assim, o grande pilar, a base, a Rocha Firme desta Aliança é Deus, na sua Fidelidade e Justiça – apesar de tudo, Deus não desiste, pelo contrário, renova, insiste, reforça a sua Aliança, com o salmista, com Israel, com toda a Humanidade. É esta, de facto, a grande proclamação dos Profetas. Diante de um Amor assim, Fiél e Permanente, só pode surgir a Fé: Mas em ti encontramos o perdão; por isso te fazes respeitar.

A atitude do crente torna-se então a abertura a este Amor, único capaz de o transformar no seu Perdão e de o fazer corresponder à Aliança: apenas este Amor, assim, revelado, pode libertar o crente, e todo o povo, da sua experiencia de pecado e de morte. Apenas este Amor, cujo Rosto máximo encontramos em Jesus e cujo Poder pleno encontramos na sua Ressurreição, pode recriar o pecador e levá-lo de novo à experiencia original: a experiencia da libertação, da Graça que forma Aliança. Vemos que é a atitude contrária à de tantas lógicas que encontramos: perante a experiencia do pecado, mais que separarmo-nos, só nos podemos aproximar e abrir a este Amor capaz de nos libertar: A minha alma confia na sua palavra, a minha alma volta-se para o Senhor. Com Ele é abundante a redenção. Ele há-de livrar Israel de todos os seus pecados.

 
   

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